Australiano planejou casar com um americano e deixou-lhe 2 milhões de dólares mas a ex-mulher revelou que o homem nunca existiu
William Ian Southey morreu aos 73 anos a 11 de outubro de 2022, deixando um testamento feito dois meses antes que nomeava o seu parceiro online, Kyle Stuart Jackson, como executor. Southey foi casado com Kaye Moseley entre 1976 e 1989 e mantiveram uma amizade próxima após a separação. Passou cerca de 40 anos num relacionamento estável com outro homem, até a morte do seu parceiro em 2017. Nos termos do testamento, a Sra. Moseley ficou com 100 000 dólares australianos, enquanto o restante da herança, incluindo a casa de Southey no sofisticado subúrbio leste de Melbourne, Kew, ficou para Jackson. A casa acabou por ser vendida por 2,5 milhões de dólares australianos.
In This Article:
- O veredito inicial do tribunal: o que a existência de Kyle Jackson envolve
- A vida de Southey antes do Jackson: casamento, amizades e novas buscas
- Tentativas de contactar o suposto Jackson e os primeiros sinais
- A renúncia, as exigências e a negociação do papel de Janela da herança
- A pista do passaporte e a identidade ausente
- O detetive e as descobertas que desmontaram o caso
- O veredito final do tribunal e a distribuição da herança
- Conclusões finais: a herança pode ser distribuída sem o fantasma de Jackson
O veredito inicial do tribunal: o que a existência de Kyle Jackson envolve
No âmbito do processo de inventário, em dezembro o Supremo de Victoria confirmou que o Sr. Kyle Jackson “não existe”. O falecido foi casado com Kaye Moseley entre 1976 e 1989 e manteiveram-se próximos após a separação. Viveu cerca de 40 anos numa relação estável com outro homem, até à morte deste em 2017. Em anos seguintes, Southey voltou-se para relações online, acabando por formar uma ligação no início de 2022 com um homem que reconheceu como Jackson, com quem pretendia casar. “The deceased made his will in contemplation of his possible marriage to Mr Jackson, albeit he did not ever meet him in person,” disse a juíza associada Caroline Anne Goulden nas suas conclusões.
A vida de Southey antes do Jackson: casamento, amizades e novas buscas
Southey foi casado com Kaye Moseley entre 1976 e 1989 e permaneceram amigos próximos após a separação. Viveu cerca de 40 anos numa relação estável com outro homem, até a morte do seu parceiro em 2017. Nos anos seguintes, Southey voltou-se para relações online, formando em início de 2022 uma ligação com um homem que conheceu como Jackson, a quem pretendia casar.
Tentativas de contactar o suposto Jackson e os primeiros sinais
No dia seguinte à morte de Southey, a ex-mulher, os seus advogados da KHQ Lawyers e o antigo advogado de Southey tentaram contactar Jackson. A Sra. Jones conseguiu contactar Jackson através de um endereço de email que Southey tinha fornecido antes de morrer e ligou-lhe uma semana depois. “The person purporting to be Mr Jackson said he had never been to Australia or met the deceased in person,” anotou o tribunal. Quando a Sra. Jones enviou um email para confirmar a identidade com um convite Zoom para uma videochamada, não obteve resposta. No dia seguinte, o advogado recebeu um email de Jackson a renunciar ao seu lugar como beneficiário da herança de Southey, segundo os documentos do tribunal.
A renúncia, as exigências e a negociação do papel de Janela da herança
“I want to respectfully excuse myself as a beneficiary of William's estate. I don't want it, I don't deserve it,” dizia o email, de acordo com os documentos judiciais. Em março de 2023, os advogados da KHQ contataram o email de Jackson para saber se ele desejava administrar a herança de Southey. A pessoa respondeu com uma condição exigente: “I must be informed of every step of the process of execution as well as entitled to 15 per cent of his estate's value and I will decide whom or what charity to send my share to,” bem como afirmou que preferia comunicar diretamente com Kaye Moseley; “I will not be picking [up] calls from anyone except her. My relationship with William was special and I am yet to recover from his demise.”. Um post-scriptum acrescentou: “I will only be willing to share private information with Kaye about the nature of our relationship.”
A pista do passaporte e a identidade ausente
A pedido dos advogados, Jackson forneceu uma imagem de um passaporte que alegadamente era de um homem chamado 'Kyle Jackson', nascido a 18 de outubro de 1984. A data de emissão era 9 de janeiro de 2018 e a expiração era 18 de outubro de 2024. Contudo, os advogados verificaram — com a ajuda de um detetive particular — que Jackson não era uma pessoa real. O email continha um endereço na Pensilvânia e ele afirmava não se encontrar com ninguém por videoconferência, comunicando-se apenas por email, segundo o tribunal.
O detetive e as descobertas que desmontaram o caso
Em abril de 2023, depois de os advogados terem enviado documentação para o endereço, um homem chamado Jeremy Snyder ligou a dizer que ninguém com o nome de Sr. Jackson lá tinha vivido. Menos de alguns meses depois, em dezembro, uma pessoa a afirmar ser Jackson respondeu aos advogados dizendo que esteve envolvida num acidente e que acabara de se recuperar: “Is it too late to fill the forms?”, segundo os documentos judiciais. Após ser informado de que a Sra. Moseley tinha recebido a sua autorização para administrar a herança, a pessoa respondeu de forma irritada: “I am sure Will is rolling in his grave now. You guys went behind my back and made this happen all because of the love for money,” e ainda: “He always wanted to help his people back in Fiji and help the needy, sadly, this will never be actualised.”. Os advogados de Moseley continuaram a verificar a identidade de Jackson ao longo de 2024, incluindo a contratação de um detetive privado com base nos EUA. Em julho de 2024, o detetive concluiu que o passaporte era fraudulent e que Jackson não era uma pessoa real.
O veredito final do tribunal e a distribuição da herança
Em dezembro, a juíza Goulden entendeu que a Sra. Moseley tinha direito de distribuir o patrimônio do ex-marido sem considerar interesses de Jackson. “I am satisfied that the person named [in the will] as Kyle Stuart Jackson does not exist in the manner understood by the deceased, or at all,” afirmou a juíza. A Sra. Moseley também tinha direito de distribuir o restante da herança a si própria de acordo com os termos do testamento.
Conclusões finais: a herança pode ser distribuída sem o fantasma de Jackson
A decisão do tribunal permitiu que a Sra. Moseley distribuísse o restante da herança conforme o testamento, sem considerar os interesses de Jackson. “I am satisfied that the person named [in the will] as Kyle Stuart Jackson does not exist in the manner understood by the deceased, or at all,” disse a juíza. O caso deixa claro que uma pessoa pode ser reconhecida como herdeira legítima apenas com base na validade decisória do testamento e da identificação dos executores, sem depender de identidades não verificáveis.